Surdez: do Oralismo ao Bilinguismo
Historicamente é possível perceber que sempre se buscou uma maneira para se estabelecer uma relação de comunicação entre os surdos e os ouvintes. Partindo-se da imposição do oralismo pelas comunidades ouvintes até felizmente se chagar a uma possibilidade de respeito às comunidades surdas através da implantação do bilinguismo (LIBRAS/Português) nas instituições públicas.
Infelizmente, essa tentativa inicial de comunicação foi baseada na teoria oralista que pregava o surdo como um deficiente e a surdez como uma doença a ser curada, teoria também chamada de clínico-terapêutica. Essa visão buscava fazer com que o surdo apreendesse a linguagem oral para poder ser considerado “normal” e ser inserido no grupo majoritário oralista. Segundo Fantinel (2009, p.35) “na visão oralista, a linguagem oral está acima do ensino”, ou seja, as outras disciplinas ficam relegadas ao segundo plano e a cultura surda antropologicamente construída não é considerada, prejudicando assim o total desenvolvimento cognitivo da pessoa surda.
Ao chegar à década de 70, surge a comunicação total, uma nova maneira de se tentar desenvolver o aprendizado dos surdos. Nela o surdo não é visto como um doente, mas como uma pessoa dotada de uma marca, a surdez. Embora essa nova forma de trabalhar educacionalmente com as pessoas surdas se utilizasse de sinais, leitura orofacial entre outros recursos possíveis para comunicação, à finalidade era como no oralismo fazer o surdo desenvolver a linguagem oral.
Para Damázio (2007, p.19):
Os dois enfoques, oralista e da comunicação total, negam a língua natural das pessoas com surdez e provocam perdas consideráveis nos aspectos cognitivos, sócio-afetivos, linguísticos, políticos culturais e na aprendizagem desses alunos.
Paralelamente ao desenvolvimento da comunicação total surgiu o bilinguismo, o qual tem como objetivo capacitar a pessoa surda no uso da LIBRAS e do português tanto no cotidiano escolar como nos outros âmbitos sociais.
A utilização do bilinguismo permite que o surdo seja respeitado como sujeito sócio-linguístico diferente, que necessita de um trabalho pedagógico diferenciado, paltado na sua experiência visual. Além disso, no bilinguismo o surdo não é visto como um deficiente, mas sim como parte de uma comunidade diferente em seus aspectos políticos, culturais. O respeito pelo uso da LIBRAS como língua materna e do português como segunda língua facilita o desenvolvimento cognitivo, emocional e social dos surdos pois além de manter comunicação com seus pares surge a oportunidade de comunicação com a comunidade ouvinte.
Se o uso do bilinguismo se tornar uma realidade no cotidiano escolar e social, será possível evitar que os alunos surdos sejam colocados em “vidros nas escolas” como no triste exemplo visto na história de Ruth Rocha. Não é possível mais se permitir que por falta de professores bilíngues e professores surdos os alunos surdos continuem a contar esse triste relato da sala de aula: “agente não escutava direito o que os professores diziam, os professores não entendiam o que a gente falava, e a gente nem podia respirar direito... “ (Ruth Rocha).
Concluo esse trabalho com as sábias palavras de Quadros (2007, p. 105):
Os surdos sonham com espaços em que a língua de sinais seja a língua de instrução em um ambiente cultural e social que favoreça o fortalecimento das heranças surdas para a consolidação de um grupo que se diferencia a partir da experiência visual.
Referencias bibliográficas:
FANTINEL, Patrícia. Escola, currículo e educação de surdos. In: Curso de especialização a Distancia em Educação de Especial: déficit cognitivo e educação de surdos: módulo II / [Melania de Melo Casarin... [et al.]] – Santa Maria: UFSM, CE, Curso de Especialização à Distância em Educação Especial, 2009.
104 p ; il.
DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo. Atendimento Educacional Especializado para Pessoas com Surdez. SEESP/SEED/MEC – 2007.
QUADROS, Ronice Muller de. Inclusão de Surdos: pela peça que encaixa nesse quebra-cabeça. In: Ensaios Pedagógicos. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de educação especial, 2007.
194 p.
Monarah Simone P. Tomaz - Pós graduanda do Curso Especialização em Educação Especial Déficit Cognitivo e Educação para Surdos.Universidade Federal de Santa Maria - RS.
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